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A planta que atrai cobras para o seu jardim: nunca a plante, pois chama estes répteis.

Pessoa a plantar ervas num canteiro de jardim, com ferramentas de jardinagem e um saco ao lado.

O jardineiro do lado jurava que tinha encontrado a forma perfeita de tornar o seu quintal “mais natural”.

Alguns meses depois, os filhos deixaram de brincar no relvado. O cão não atravessava o caminho. E, numa tarde quente, vi da minha janela quando ela ficou imóvel, regador a meio no ar, a olhar fixamente para uma cobra grossa e castanha que deslizava preguiçosamente entre os caules das suas novas plantas ornamentais.

Ela não tinha trazido um ninho de cobras. Tinha trazido comida, abrigo e a cobertura perfeita. Tudo numa única planta de aspeto inocente.

Esta é a armadilha silenciosa por trás de certas tendências “selvagens” de jardinagem. Algumas plantas não se limitam a parecer exuberantes. Transformam o seu quintal num lounge VIP para cobras.

E uma das piores culpadas é uma planta que as pessoas continuam a comprar todas as primaveras.

A planta que convida silenciosamente cobras para o seu jardim

Há uma razão para jardineiros rurais mais antigos olharem de lado para coberturas de solo densas como hera-do-chão, hera-inglesa, tapetes de tomilho-rasteiro ou mantos baixos de zimbro. Estas plantas criam mantas espessas e frescas sobre o solo. As cobras adoram esse tipo de lugar. É discreto, húmido, cheio de insetos e muitas vezes cheio de pequenos roedores.

Passe por um trecho brilhante de hera numa noite de verão e pode achar que fica “romântico” e selvagem. Por baixo, pode existir um pequeno mundo em miniatura: lesmas, escaravelhos, ratinhos escondidos, lagartos. Para uma cobra, isso não é apenas um canteiro. É um resort com tudo incluído.

Uma planta, em particular, é assinalada repetidamente por especialistas em fauna selvagem: a hera-inglesa. Rasteja, trepa, acumula-se. Enrola-se em troncos e muros. Forma tapetes espessos e sombrios, quase impossíveis de ver através. É exatamente este tipo de estrutura que permite às cobras deslocarem-se sem serem vistas, caçar em silêncio e descansar sem serem incomodadas.

Uma equipa de controlo de pragas nos EUA partilhou, uma vez, fotografias de uma casa suburbana cujos proprietários se queixavam de “cobras ocasionais”. Toda a linha da vedação estava coberta de hera pesada, com raízes grossas como cordas. Quando a equipa a puxou para trás, encontrou peles antigas de cobras entrelaçadas nos caules, túneis de ratos e até uma ninhada de ovos escondida no fundo da massa vegetal.

Ninguém tinha visto mais do que uma cobra de cada vez. A realidade era que a hera tinha transformado toda a bordadura num corredor oculto.

Estudos sobre corredores de vida selvagem em meio urbano mostram frequentemente o mesmo padrão: onde existe cobertura de solo contínua e densa, ou trepadeiras ao longo de muros e vedações, há mais pequenos mamíferos. Onde há mais pequenos mamíferos, há mais predadores - incluindo cobras.

Raramente é “uma planta, uma cobra”. É a estrutura. Altura, sombra, humidade, esconderijos. Hera-inglesa, pachysandra (pachisandra) demasiado densa, roseiras de cobertura de solo sem controlo ou líriope espalhada - tudo isto cria essa estrutura. Se vive numa região com cobras, estas tornam-se autoestradas prontas a usar, embrulhadas em folhas bonitas.

O erro que muitas pessoas cometem é pensar: “Nunca vejo cobras, por isso não estão cá.” As plantas de cobertura de solo densas funcionam como cortinas. Não escondem apenas as raízes. Escondem a realidade.

Como afastar cobras sem transformar o jardim em betão

O objetivo não é transformar o quintal num parque de estacionamento estéril. É quebrar a combinação perfeita de comida, sombra e abrigo. Comece pelo mais simples: reduzir ou desbastar tapetes exuberantes e contínuos de plantas, sobretudo encostados à casa, ao pátio ou à zona onde as crianças brincam.

Em vez de longas bordaduras de hera ou de líriope densa, escolha perenes e arbustos que cresçam em tufos, com espaço entre eles. Pense em gramíneas ornamentais em moitas, alfazema, salva, alecrim e flores com o solo visível à volta da base. As cobras não gostam de atravessar zonas largas, abertas e expostas, onde os predadores as conseguem ver.

Use a cobertura do solo (mulch) com critério. Uma camada fina e visível de gravilha ou casca é aceitável. Cobertura escura e profunda, amontoada junto a paredes e por baixo de arbustos, torna-se outra “fita” fresca para se esconderem. Mantenha-a leve e baixa. E apare as bases das plantas para conseguir ver um pouco de luz por baixo de arbustos e sebes. Essa linha mínima de visibilidade quebra o efeito de túnel de que as cobras gostam.

Muita gente foca-se em “plantas repelentes de cobras”. A verdade é que nenhuma planta vai afastar cobras por magia se o resto do jardim for um buffet. O que funciona melhor é tornar o quintal aborrecido para as presas delas.

Isso significa menos desordem e menos cantos secretos. Guarde a lenha fora do chão, não diretamente sobre a terra nem encostada a vedações cobertas de hera. Remova pilhas de vasos velhos, tijolos, telhas. Esses cantos de “depois trato disso” são exatamente onde ratos e ratazanas montam base.

Quando os roedores saem, as cobras têm menos motivos para visitar. Jardins que são capinados regularmente, ligeiramente podados e onde se consegue ver o solo aqui e ali tendem a ter menos convidados reptilianos indesejados. Não é uma questão de perfeição. É uma questão de não lhes oferecer um sistema completo de labirintos para explorar.

Sejamos honestos: ninguém sai todas as noites com uma lanterna para inspecionar cada canteiro.

O que pode fazer é definir regras simples. Nada de cobertura de solo densa junto a portas de entrada ou onde as crianças andam descalças. Nada de hera (ou trepadeiras semelhantes) a crescer sem controlo ao longo da vedação. Se já tem estas plantas, desbaste-as. Abra “janelas” nelas. Quebre a manta contínua.

“As cobras não são vilãs. São oportunistas”, diz um herpetólogo com quem falei. “Se o seu jardim oferece abrigo, sombra e um supermercado de ratos, claro que elas aparecem. Mude um destes três fatores e muda a história.”

Para tornar isto prático, aqui vai uma lista mental rápida quando olha para qualquer planta ou canto do seu quintal:

  • Cria uma cobertura contínua e densa no chão?
  • Está mesmo ao lado de muros, vedações, anexos ou pilhas de lenha?
  • O solo está sempre fresco, escuro e difícil de ver?
  • Um rato sentir-se-ia seguro a correr por baixo?
  • Consegue ver luz do dia junto à base, ou está tudo fechado?

Se respondeu silenciosamente “sim” à maioria, esse ponto é um potencial “corredor” para cobras. Não precisa de arrancar tudo amanhã de manhã. Comece por abrir intervalos, elevar a copa das plantas e afastar as de maior risco das zonas de maior circulação.

Repensar como é um jardim “seguro” e bonito

Há um paradoxo estranho na jardinagem moderna: desejamos cantos selvagens, exuberantes e dignos de Instagram, mas também queremos sentir-nos seguros a andar descalços ao anoitecer. Gerir esta tensão implica aceitar que cada escolha de plantas tem consequências invisíveis.

A hera-inglesa pode parecer um cenário romântico, mas em muitos climas funciona como um íman silencioso para toda a cadeia alimentar que as cobras seguem. Quando a substitui por arbustos mais arejados, perenes floridas e clareiras abertas, não está apenas a mudar o estilo. Está a reescrever a forma como a vida selvagem usa o seu espaço.

Todos já tivemos aquele momento em que um ruído nos arbustos fez o coração dar um salto. O seu jardim será sempre um lugar vivo, com insetos, aves e, por vezes, répteis. A questão não é “cobra ou não cobra”, é “eu torno isto fácil, ou torno isto improvável?”.

Fale com os vizinhos. Se a sua vedação está bem aparada, mas do outro lado há uma parede de hera e pilhas de lenha, está a travar metade da batalha com uma mão atada. Algumas comunidades conseguiram reduzir encontros com cobras simplesmente ao acordarem práticas comuns de plantação junto às vedações.

E talvez seja essa a mudança silenciosa que está a acontecer na jardinagem: menos “plantas a qualquer custo”, mais beleza ponderada e ligeiramente estratégica. Um jardim que respira, deixa a luz chegar ao solo e continua a parecer um sítio onde apetece sentar-se, com os tornozelos descobertos, numa noite de verão.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Evite coberturas de solo densas perto da casa Plantas como hera-inglesa, pachysandra e canteiros densos de líriope criam túneis frescos e escondidos Reduz a probabilidade de cobras se abrigarem onde caminha, se senta ou onde as crianças brincam
Quebre a combinação “comida + sombra + abrigo” Limite esconderijos de roedores, abra as bases das plantas, mantenha a cobertura do solo leve e visível Torna o jardim menos atrativo para roedores e cobras sem perder o verde
Escolha plantas arejadas, em tufos Use arbustos e perenes com solo visível entre eles Mantém um jardim bonito, permitindo detetar movimento rapidamente e sentir-se mais seguro

FAQ:

  • Qual é a principal planta que atrai cobras? Não existe uma única planta “mágica”, mas a hera-inglesa é uma das mais citadas porque forma tapetes espessos e escuros e massas trepadoras que abrigam roedores e criam corredores perfeitos para cobras.
  • Remover a hera elimina as cobras completamente? Não, mas pode reduzir drasticamente os esconderijos e as fontes de alimento. As cobras podem continuar a passar, mas é menos provável que fiquem sem cobertura e presas.
  • Existem plantas que realmente repelem cobras? Muitas listas online afirmam que certas plantas repelem cobras, mas a prova científica é muito fraca. O que realmente importa é a estrutura do jardim: linhas de visão abertas, menos esconderijos para roedores e menos cobertura de solo densa.
  • É seguro ter um jardim “selvagem” se eu vivo onde as cobras são comuns? Pode ter um jardim com aspeto selvagem, com flores e gramíneas altas, desde que evite que a camada junto ao solo se torne um tapete contínuo e sombreado e mantenha plantas de maior risco afastadas de caminhos, portas e zonas de brincadeira.
  • O que devo fazer se já vejo cobras no meu jardim? Primeiro, identifique a espécie, se possível, a uma distância segura. Depois, remova gradualmente ou desbaste a hera e coberturas de solo densas, arrume pilhas de detritos e consulte profissionais locais de vida selvagem ou controlo de pragas se os encontros forem frequentes ou se suspeitar de espécies venenosas.

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