Across de França, uma tecnologia de que milhões ainda dependem está a caminhar para a saída, armário de rua a armário de rua, cidade a cidade.
A envelhecida rede de cobre do país, que transporta a banda larga ADSL, enfrenta agora um prazo rígido à medida que os operadores aceleram a mudança para a fibra. Uma decisão técnica no papel, mas que vai remodelar a vida quotidiana de famílias, pequenas empresas e comunidades rurais que construíram as suas rotinas em torno de linhas de cobre “suficientemente boas”.
O longo adeus do ADSL está a transformar-se num prazo firme
O ADSL tem vindo a perder destaque há anos, ofuscado pela fibra, pelo 4G e, agora, pelo 5G. Ainda assim, milhões de lares franceses continuam a usá-lo todos os dias para trabalhar, fazer streaming e garantir conectividade básica. Para essas pessoas, a mudança já não é teórica.
Depois de anos de anúncios e encerramentos-piloto, o calendário está a tornar-se concreto. Em janeiro de 2025, mais de 160 localidades francesas viram a sua rede de cobre ser desligada, cortando o acesso ao ADSL e empurrando os residentes para a fibra ou para tecnologias alternativas. Uma nova vaga chega a 27 de janeiro de 2026, quando 763 novos municípios verão a sua rede de cobre ser desativada.
No início de 2026, quase 900 000 lares adicionais perderão o acesso ao ADSL no âmbito do programa francês de desligamento do cobre.
Este processo continuará a expandir-se passo a passo até ao desligamento nacional da rede de cobre, apontado para 2030. Essa data pode parecer distante, mas para muitas comunidades o corte real chegará anos antes, à medida que as centrais locais entrarem na sua própria janela de encerramento.
Porque é que os operadores querem desligar o cobre
Na perspetiva de um engenheiro de telecomunicações, o cobre já cumpriu o seu papel. A rede remonta à era das chamadas de voz em linha fixa, não do streaming em 4K e do cloud gaming. A sua manutenção tornou-se dispendiosa, tanto do ponto de vista financeiro como ambiental.
A Orange, que gere a maior parte da infraestrutura de cobre de França, apresenta a mudança como um passo lógico. A empresa argumenta que o cobre já não corresponde à largura de banda, estabilidade e fiabilidade exigidas pelos usos atuais. A fibra, em contrapartida, suporta velocidades muito superiores, permite uploads e downloads simétricos para teletrabalho e escala muito melhor à medida que mais dispositivos se ligam em cada casa.
A malha de cobre também exige manutenção constante no terreno: infiltrações de água, armários de rua envelhecidos, corrosão, roubo de cabos, problemas de alimentação elétrica. Cada avaria desencadeia deslocações de técnicos e reparações de emergência, muitas vezes em zonas remotas onde é mais difícil mobilizar equipas. A fibra reduz muitas destas dores de cabeça, com menores taxas de falha e um desenho de rede mais adequado aos serviços digitais modernos.
A rede de cobre nunca foi construída para videochamadas em massa, cópias de segurança na nuvem ou vários dispositivos de streaming; a fibra foi concebida precisamente para esse mundo.
Pressão económica e política por trás da mudança
A transição não é apenas técnica. Reflete também escolhas de política nacional. A França passou anos a subsidiar a expansão da fibra, com forte enfoque no acesso de “muito alta velocidade” em áreas menos densamente povoadas. Manter para sempre duas infraestruturas paralelas faz pouco sentido para operadores ou reguladores.
Encerrar o cobre ajuda a libertar recursos: menos missões de reparação, menor consumo energético em centrais antigas e mais investimento orientado para melhorar os backbones de fibra e as redes de acesso locais. Para governos pressionados a mostrar progresso na inclusão digital, uma curva visível de adoção de fibra é uma métrica conveniente.
Como funciona a contagem decrescente em cada localidade
O desligamento do ADSL não acontece de um dia para o outro. A Orange e os operadores parceiros seguem um protocolo faseado, concebido para evitar apagões súbitos para famílias e empresas.
- As autoridades locais recebem aviso com cerca de três anos de antecedência antes do desligamento físico do cobre.
- Depois, os operadores começam a migrar clientes, dando prioridade às zonas onde a fibra já está disponível.
- Um ano antes do encerramento técnico, a área entra em “encerramento comercial” do cobre.
- Na data final, o acesso ADSL termina e as linhas de cobre são gradualmente desmanteladas.
O “encerramento comercial” desempenha um papel central. Quando um município chega a essa fase, os residentes deixam de poder subscrever novos contratos ADSL ou transferir um plano ADSL existente para outra morada em cobre. O único caminho passa a ser a fibra ou outra opção não baseada em cobre.
Quando uma localidade entra em encerramento comercial, o ADSL torna-se um beco sem saída: pode mantê-lo por algum tempo, mas já não pode abrir uma nova linha.
Como verificar se a sua zona é a próxima
Os residentes em França podem acompanhar o estado da sua localidade através de uma plataforma de informação dedicada, gerida pelo operador nacional e por entidades públicas. Várias ferramentas mostram agora, morada a morada, se a fibra está disponível, se o cobre continua aberto a novas subscrições e quando está prevista uma janela de encerramento local.
Para as famílias, um sinal prático surge muitas vezes antes das cartas oficiais: os operadores começam a promover ofertas de fibra de forma agressiva, por vezes com instalação gratuita, descontos temporários ou pacotes combinados de móvel e internet fixa. As autarquias podem também lançar campanhas de comunicação, distribuindo folhetos ou organizando sessões de esclarecimento quando as datas de encerramento se aproximam.
Se vive numa zona rural que ainda luta com velocidades ADSL básicas, esta contagem decrescente pode ser, na verdade, uma boa notícia. Muitas vezes significa um impulso para concluir a implementação de fibra ou, onde a fibra permanece irrealista, para reforçar a cobertura 4G/5G fixa sem fios ou via satélite.
O que isto significa para famílias e pequenas empresas
O encerramento do cobre pode parecer uma ameaça quando o ADSL “simplesmente funciona” e a rotina familiar depende dele. No entanto, ficar como está tem os seus próprios riscos. À medida que a data de encerramento se aproxima, a capacidade de reparação e suporte no cobre pode diminuir, levando a uma resolução de avarias mais lenta.
Para utilizadores domésticos, a fibra costuma trazer mudanças imediatas e visíveis:
- Velocidades de download muito superiores para streaming e grandes atualizações de jogos.
- Uploads muito melhores para teletrabalho, videochamadas e armazenamento na nuvem.
- Menor latência, o que beneficia jogos online e aplicações em tempo real.
- Melhor resistência quando várias pessoas usam a ligação ao mesmo tempo.
Para pequenas empresas, o que está em jogo é maior. Terminais de ponto de venda, contabilidade na nuvem, backups remotos e câmaras de segurança dependem de uma linha estável. Migrar cedo ajuda a evitar corridas de última hora, em que as marcações de instalação se tornam escassas, especialmente em zonas com muitos encerramentos agendados para o mesmo período.
Deixar a mudança para os últimos meses arrisca listas de espera longas para instalação, sobretudo em periferias urbanas com muita procura.
Casos limite: quando a fibra ainda não está pronta
Nem todas as moradas terão uma tomada de fibra pronta quando o cobre for desligado. Algumas casas ficam no fim de longos caminhos de acesso, dentro de edifícios protegidos, ou em zonas onde as obras civis ficam atrasadas. Nesses casos, operadores e reguladores têm de encontrar alternativas.
As opções de contingência típicas incluem:
- Equipamentos 4G ou 5G de “internet em casa” que usam a rede móvel.
- Serviços por satélite para locais de difícil acesso.
- Soluções híbridas que combinam uma linha fixa mais fraca com dados móveis.
Estas tecnologias variam em latência, limites de dados e preço, pelo que as famílias devem comparar com cuidado em vez de aderirem à primeira oferta. Em alguns casos, programas regionais subsidiam equipamentos de satélite ou de acesso fixo sem fios se a implementação de fibra tiver sido adiada.
O contexto global: desligamentos do cobre para lá de França
A França está no meio de uma tendência europeia e global mais ampla. Vários países já anunciaram datas-alvo para encerrar redes legadas de cobre. O Openreach do Reino Unido, por exemplo, está a conduzir o seu próprio encerramento da Public Switched Telephone Network (PSTN) e a eliminação gradual do FTTC, enquanto incentiva a adoção de fibra total e voz digital. Em partes da Escandinávia, o cobre já desapareceu em muitas zonas rurais, onde a fibra e o acesso fixo sem fios assumiram o serviço.
A lógica é, em termos gerais, semelhante em todo o lado: reduzir infraestruturas paralelas, simplificar a engenharia e pivotar para redes que correspondem melhor ao uso atual da internet. Quem se desloca entre países verá a mesma história repetir-se com nomes e calendários diferentes, do ADSL em França ao VDSL e FTTC noutros locais.
Como antecipar o fim do ADSL em casa
Os residentes que ainda estão em ADSL podem encarar os próximos anos como um período de transição, e não como uma queda abrupta. Uma abordagem passo a passo ajuda a reduzir o stress e a evitar surpresas desagradáveis.
| Passo | O que fazer |
|---|---|
| 1. Verificar o estado | Consulte a sua morada nas ferramentas oficiais de cobertura e anote quaisquer datas de encerramento. |
| 2. Auditar a utilização | Liste todos os dispositivos e serviços que usam a ligação: portátil de trabalho, TV, consolas, alarmes, câmaras. |
| 3. Comparar tarifários | Peça propostas de fibra a vários fornecedores, com atenção à velocidade de upload e às condições contratuais. |
| 4. Agendar cedo | Marque a instalação meses antes do encerramento do cobre, para garantir um horário conveniente. |
| 5. Testar e ajustar | Já com fibra, faça testes de velocidade e ajuste Wi‑Fi, cablagem ou a colocação do router, se necessário. |
Este tipo de preparação também ajuda famílias com constrangimentos específicos, como pais em teletrabalho, estudantes a realizar exames online ou familiares idosos que dependem de dispositivos de teleassistência. Alguns sistemas de alarme médico, por exemplo, ainda usam linhas telefónicas analógicas e precisam de ser atualizados para continuar funcionais quando o par de cobre desaparecer.
Para lá da mudança: novos usos e contrapartidas menos visíveis
O fim do ADSL não significa apenas “Netflix mais rápido”. Linhas mais estáveis e de maior capacidade alteram o que as pessoas podem realisticamente fazer a partir de casa: alojar pequenos servidores, trabalhar com ficheiros de design pesados, usar cloud gaming ou gerir fluxos de segurança em alta resolução.
Ainda assim, a mudança também levanta questões. À medida que tudo passa para redes IP, as falhas de energia têm um impacto maior, já que a voz digital e os routers de fibra dependem da eletricidade doméstica. Algumas famílias optam por unidades de backup a bateria para o router ou por um hotspot móvel, sobretudo em zonas onde tempestades ou falhas na rede elétrica acontecem com regularidade.
O encerramento do cobre também se cruza com debates sobre direitos digitais e concorrência. Quando a fibra se torna a única opção fixa, as condições contratuais, as taxas de aluguer de modem e a limitação de velocidade (throttling) ficam sob um escrutínio mais apertado. Os consumidores poderão querer comparar não só as velocidades anunciadas, mas também políticas de privacidade de dados, práticas de gestão de tráfego e o historial de apoio ao cliente.
Para quem se sente confortável com tarefas técnicas básicas, pequenas simulações podem ajudar a planear o próximo passo: verificar necessidades reais de débito com base em atividades típicas, estimar o total de dados usados por mês ou testar a qualidade do sinal móvel como alternativa caso a ligação de fibra falhe. Estes pequenos exercícios transformam uma mudança de infraestrutura iminente numa decisão doméstica mais gerível, em vez de um choque repentino quando a última luz do ADSL se apagar.
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