Saltar para o conteúdo

Andar rápido é menos uma escolha de vida e mais um sinal de stress interior profundo.

Mulher a correr na calçada com café na mão, mapa e mochila ao ombro.

A mulher a fazer ziguezague por entre a multidão, o saco de pano a bater-lhe na anca. O tipo de sapatilhas a andar como se fosse perder um transplante de coração, e não um comboio que passa de três em três minutos. Os passos são cortantes, os ombros tensos, os olhos presos numa meta invisível que mais ninguém consegue ver.

Vês os corpos a mexerem-se mais depressa do que a situação exige. Não estão atrasados, não estão em perigo, não estão a ser perseguidos. Estão apenas… impelidos. Ou talvez perseguidos por qualquer coisa cá dentro. O ritmo parece menos propósito e mais fuga.

Andar depressa não é exclusivo das grandes cidades. Acompanha as pessoas até aos supermercados, às escolas, às ruas suburbanas. Diz muito - muitas vezes mais alto do que as palavras.

E o que diz raramente é: “Estou a prosperar”.

Quando a tua velocidade a andar denuncia a tua mente

Andar depressa é muitas vezes apresentado como ambição. O passo moderno de quem “tem coisas para fazer”. Na realidade, pode parecer mais uma fuga física da pressão interior. O corpo simplesmente não consegue estar quieto, não consegue amolecer, não consegue mover-se devagar sem sentir culpa.

Observa alguém que se mexe depressa demais para o espaço em que está. Os braços cortam o ar. O maxilar está contraído. Não vê realmente o que está à volta; faz uma varredura. Essa velocidade é menos uma escolha e mais um hábito criado ao longo de anos de prazos, notificações e pânico silencioso.

Num passeio cheio, sente-se como o tempo. Há o passeante lento de domingo, o pai ou mãe distraído, e depois há… tu, a abrir caminho, a pulsar com uma urgência que nem tu consegues explicar totalmente.

Imagina um homem na casa dos trinta, crachá do escritório ainda preso ao cinto, a apressar-se por uma rua residencial às 20h. Sem reunião. Sem comboio. Apenas a voltar para casa a pé. O relógio vibra; o passo aperta. Um vizinho diz olá, ele devolve um “olá” rápido sem abrandar. As pernas comportam-se como as de alguém que está atrasado, mas a vida dele, naquele momento, não está marcada por nenhum relógio.

Mais tarde, no sofá, repara que o coração ainda está um pouco acelerado. Nada dramático - só aquele zumbido baixo de inquietação. Faz scroll nas redes sociais, responde a uma mensagem de trabalho “só para despachar”. Quando vai até à cozinha, o andamento é o mesmo: rápido, curto, em modo tarefa. O corpo nunca passa verdadeiramente do “vai” para o “está”.

As estatísticas sustentam isto de uma forma torta. Inquéritos mostram níveis recorde de stress crónico e ansiedade em adultos jovens, sobretudo nas grandes cidades. Ao mesmo tempo, comportamentos do dia a dia como andar depressa são vendidos como produtividade, hustle, “otimizar o teu dia”. No papel, parece energia. Na prática, muitas vezes sabe a sobrevivência nervosa.

Os humanos raramente aceleram sem motivo. Se um autocarro está a partir, se uma criança está em perigo, o corpo acelera como deve. Mas quando a configuração por defeito passa a ser andar depressa em situações neutras, está a acontecer outra coisa. O sistema nervoso fica preso num estado de semi-alerta, como se a vida fosse um corredor interminável de “quase atrasado”.

Os psicólogos chamam-lhe hiperativação: o corpo comporta-se como se se estivesse a preparar para algo, mesmo quando não há nada específico a acontecer. Andar depressa encaixa aí perfeitamente: uma microfuga constante ao desconforto, ao silêncio, à sensação de estar a ficar para trás.

Isto não é para julgar quem anda depressa. É para ver que o que parece “tenho tudo sob controlo” pode, secretamente, ser “não consigo abrandar sem me sentir inseguro”. O ritmo esconde a pressão.

Como renegociar, com suavidade, a tua velocidade a andar

Um ensaio prático: escolhe um percurso que fazes quase todos os dias. Para o trabalho, para a estação, para o supermercado. Um dia desta semana, sai exatamente à mesma hora, mas decide andar a 70% da tua velocidade habitual. Não é em câmara lenta - apenas visivelmente mais suave.

Não olhes para o relógio. Concentra-te na sensação dos pés a pousar no chão, no balanço dos braços. Deixa que outras pessoas te ultrapassem. Deixa a tua mente gritar “Vá, mexe-te!”, e apenas repara nesse grito sem lhe obedecer.

Quando chegares, verifica duas coisas: o tempo real que demoraste… e como o teu peito se sente. Muitas vezes, o relógio quase não muda, mas o ruído interior fica muito alto. Esse ruído é a história que o teu stress tem contado às tuas pernas.

Há um medo comum de que abrandar te faça parecer preguiçoso ou pouco profissional. Que os colegas julguem a tua “falta de urgência”. Na realidade, a maioria das pessoas está demasiado absorvida no seu próprio turbilhão para reparar na tua passada. E quem repara muitas vezes inveja a calma visível mais do que o frenesim.

Tenta apanhar os teus momentos mais rápidos: quando sais de uma reunião, quando desces do comboio, quando vais do ecrã para a cozinha. Faz uma pergunta simples: “Está mesmo alguma coisa a arder?” Se a resposta for não, experimenta dois passos mais lentos. Só dois. Uma pequena desobediência ao sargento instrutor interior.

Num dia difícil, vais esquecer-te. Vais rasgar as ruas como sempre. Tudo bem. A mudança quase nunca parece limpa ou linear. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

“Os nossos corpos guardam os nossos calendários, os nossos medos, as nossas frases por acabar. Às vezes, a pessoa mais rápida na sala não é a mais determinada - é apenas a que tem mais medo de parar.”

Para tornar isto mais concreto, podes criar um “micro-ritual” simples em torno do andar:

  • Antes de passares a porta de casa, pára para uma respiração lenta.
  • Escolhe um marco no teu percurso onde deixas sempre cair os ombros.
  • Define um trajeto diário (ir buscar café, deixar as crianças na escola) como o teu corredor de “sem pressa”.

Num dia cheio, estes gestos parecem ridiculamente pequenos. Não são. São pequenas mensagens ao teu sistema nervoso: não estamos sob ataque.

Aprender a viver a mais do que uma velocidade

Andar depressa não vai desaparecer das nossas cidades nem das nossas vidas. Às vezes estás mesmo atrasado, ou o comboio está genuinamente prestes a partir. A questão não é flutuar por aí como um monge em câmara lenta. É recuperar a escolha do ritmo, em vez de deixar o stress segurar no comando.

Quando começas a reparar no teu próprio andamento, surgem perguntas estranhas. Porque é que corro de divisão em divisão em casa? Porque é que me sinto culpado por andar devagar quando, tecnicamente, já não estou a trabalhar? Onde aprendi que imobilidade é igual a falhar?

Numa rua calma ao anoitecer, podes dar por ti a perceber que nunca andaste verdadeiramente sem motivo. Sempre a ir para algum lado, sempre a espremer alguns segundos. Num domingo, sem prazos à vista, as tuas pernas ainda se comportam como se devessem uma explicação a alguém.

Raramente falamos da velocidade a andar como um sinal de saúde mental. Sono, sim. Comida, sim. Mas a forma como atravessas o espaço revela tanto quanto isso. É um dos poucos comportamentos que levas para todo o lado: o corredor do escritório, o corredor do supermercado, o portão da escola. Os teus passos são um diário em movimento do teu tempo interior.

Partilhar isto com outras pessoas pode mudar a forma como as lês. O colega que desce o corredor a tempestade talvez não seja rude - talvez esteja a afogar-se em preocupação invisível. O adolescente a andar de um lado para o outro em casa talvez não seja “impaciente” - talvez esteja ansioso e ainda sem palavras. Andar depressa torna-se menos irritante e mais compreensível.

Podes até começar um desafio discreto com um amigo ou parceiro: uma vez por semana, uma caminhada deliberadamente mais lenta juntos, sem produtividade permitida. Apenas dois humanos a ajustar o botão da velocidade do seu sistema nervoso, um passo de cada vez.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
Andar depressa como sintoma Muitas vezes ligado a stress interno crónico e hiperativação, mais do que a pura eficiência Ajuda a interpretar o próprio comportamento e o dos outros com mais clareza
Micro-experiências com o ritmo Rotinas simples como caminhadas a 70% e corredores “sem pressa” Oferece ações concretas, fáceis de testar sem virar a vida do avesso
Recuperar a escolha da velocidade Aprender a alternar entre rápido e lento com base na realidade, não na ansiedade Permite reduzir a fadiga mental e recuperar uma sensação de controlo no dia a dia

FAQ:

  • Andar depressa é sempre sinal de stress? Nem sempre. Às vezes estás simplesmente atrasado, com energia, ou tens naturalmente um passo acelerado. Torna-se um sinal de stress quando essa velocidade aparece em situações neutras e parece impossível abrandar.
  • Andar depressa pode ser bom para a saúde? Sim, caminhar a bom ritmo é ótimo para o coração e para a condição física geral. O problema é quando a velocidade vem da ansiedade e não de exercício consciente ou prazer.
  • Como posso perceber se o meu ritmo é guiado pelo stress? Repara no que acontece se tentares abrandar quando não estás atrasado. Se sentires culpa, agitação ou uma estranha sensação de perigo, provavelmente há mais do que praticidade em jogo.
  • Abrandar a minha caminhada vai tornar-me menos produtivo? A maioria das pessoas sente o contrário. Mover-se a um ritmo escolhido, em vez de um modo frenético por defeito, costuma deixá-las mais claras, mais focadas e menos esgotadas ao fim do dia.
  • Qual é o primeiro pequeno passo para mudar este hábito? Escolhe um percurso regular e compromete-te a fazer uma caminhada mais lenta por semana nesse trajeto. Sem heroísmos - apenas curiosidade suave sobre como o teu corpo e a tua mente reagem.

Comentários (0)

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário