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Continuava a aumentar o aquecimento, mas sentia frio: especialistas explicam este problema comum em casa.

Mulher agasalhada sentada no sofá, aquecedor ligado, termómetro e medidor digital na mesa, em ambiente acolhedor.

Every poucos minutos, a Emma caminhava de mansinho de volta ao termóstato, com as mangas a taparem-lhe as mãos.

Os números digitais iam subindo devagar: 69°F, 71°F, 73°F. A caldeira resmungava algures na escuridão, como se estivesse a trabalhar a sério, e ainda assim o ar da sala parecia estranhamente “morto” e frio. O café ficava morno antes de ela chegar ao fundo da caneca. O gato tinha abandonado o sofá e mudado-se para a única mancha quente no chão da cozinha, mesmo por cima de um cano.

A Emma não estava sem dinheiro, nem era forreta com o aquecimento. Continuava a rodar o seletor, a ver o contador inteligente a girar mais depressa, a sentir-se quase culpada - e, mesmo assim, sem ficar verdadeiramente quente. Os radiadores estavam quentes ao toque. Os dedos dos pés, gelados. Havia ali qualquer coisa que não batia certo.

Depois entrou um técnico, olhou à volta com calma uma única vez e explicou que o verdadeiro problema não era o termóstato.

“Porque é que tenho frio quando o aquecimento está ligado?”: o que se passa realmente

A primeira coisa que os especialistas dizem: pare de fixar o número na parede. O seu corpo não quer saber do que o termóstato indica; quer saber de como a divisão inteira se comporta. Se as paredes estiverem geladas, as janelas deixarem entrar ar, ou o chão lhe “puxar” o calor dos pés, pode sentir frio mesmo numa sala que, tecnicamente, está a 72°F.

Não se trata apenas da temperatura do ar. Trata-se de como o calor se move. Perde calor para superfícies frias por radiação, para correntes de ar por convecção e, com meias finas num chão de azulejo, por condução. Por isso, esse frio teimoso que sente não está “na sua cabeça”. É física básica, a trabalhar silenciosamente contra si.

Todos já tivemos aquele momento em que entramos em casa de um amigo e, de imediato, parece acolhedora com uma regulação mais baixa do que a nossa. Mesmo clima. Mesma estação. História diferente.

Os técnicos de aquecimento falam disto constantemente. Um contou-nos sobre um casal numa casa vitoriana em banda que mantinha o termóstato num constante 75°F e, ainda assim, passava todas as noites debaixo de mantas. As faturas de energia eram dolorosas. As paredes, por outro lado, estavam quase à mesma temperatura do ar exterior.

Quando o técnico mediu a “temperatura média radiante” - isto é, a temperatura média de paredes, janelas, chão e teto - ela era muito mais baixa do que a do ar. Assim, os corpos estavam continuamente a irradiar calor para essas superfícies frias. Havia até frestas por baixo dos rodapés por onde o ar assobiava para dentro. Depois de vedarem essas aberturas e reforçarem o isolamento do sótão, passaram a sentir-se quentes a 68°F. Sem magia extra: apenas menos calor a escapar.

Inquéritos confirmam isto. Organizações de apoio à eficiência energética nas habitações encontram repetidamente pessoas a queixarem-se de “frio até aos ossos” em casas com fraco isolamento, mesmo com regulações que deveriam ser confortáveis. Já os ocupantes de casas bem isoladas dizem estar bem com números mais baixos. Não é resistência. É o invólucro do edifício a fazer o seu trabalho.

Os especialistas explicam que o conforto é um aperto de mão a três: temperatura, movimento do ar e temperatura das superfícies. Se um destes fatores falha, o corpo nota. Se o ar estiver quente mas a passar a correr por si devido a correntes, vai sentir-se arrefecer. Se a divisão estiver parada mas as paredes frias, vai sentir-se “puxado” para esse frio.

Casas modernas com bom isolamento tendem a equilibrar estes fatores. Casas antigas ou com fugas de ar, muitas vezes não. É aí que as pessoas vão subindo o termóstato, pensando que é um simples botão do conforto, enquanto a casa, discretamente, deita fora esse calor pago através de frestas e vidros finos.

Outro pormenor que os profissionais referem: a humidade. O ar de inverno muito seco pode fazer a pele sentir-se mais fria e o nariz “arder”, mesmo a temperaturas razoáveis. Pode achar 68°F insuportável num apartamento e perfeitamente aceitável noutro, sobretudo por causa de como o ar circula e retém humidade. O termóstato não conta essa história. O seu corpo conta.

Pequenas correções que mudam tudo (antes de tocar no termóstato)

Os especialistas tendem a começar com uma inspeção a pé, e não com uma chave inglesa. Andam devagar de divisão em divisão, mãos estendidas, à procura de correntes junto aos rodapés, debaixo das portas, à volta de tomadas em paredes exteriores. Observam a colocação dos radiadores. Olham para a escotilha do sótão. Pode fazer uma versão mais simples disto sozinho numa noite fria.

Fique um minuto no meio da sala. Depois aproxime-se da janela e permaneça ali. Sente a quebra no calor radiante? Passe o dorso da mão ao longo do contorno do caixilho. Se sentir uma linha fina de ar gelado, é calor a fugir de borla da sua casa. Um rolo barato de fita de espuma ou um vedante apropriado pode mudar isso em meia hora.

Depois, toque nos radiadores. As partes de cima estão mais frias do que as de baixo? Isso sugere ar preso e um sistema que não está a dar-lhe aquilo por que está a pagar. Purgar esses radiadores uma ou duas vezes por época é aborrecido, simples e eficaz de forma quase irritante.

Os conselheiros energéticos admitem, baixinho, que a maioria de nós espera que o termóstato funcione como magia. Subimos cinco graus e esperamos que a casa obedeça de imediato. A realidade é mais lenta e mais complexa. Tentar tornar uma sala com correntes acolhedora apenas com “força bruta” é como tentar aquecer o exterior. É um perder-perder: contas mais altas e, ainda assim, acaba por ir buscar uma camisola.

É aqui que a zonagem e a programação contam. Em vez de aquecer a casa toda com um valor “heróico” e caro, sugerem escolher as divisões onde passa as noites e torná-las realmente confortáveis, deixando outras mais frescas. Um termóstato programável simples ou válvulas termostáticas inteligentes (TRV) nos radiadores permitem fazê-lo sem microgerir cada hora.

Sejamos honestos: ninguém ajusta o horário do aquecimento de forma perfeita todos os dias. Por isso, automatizar rotinas simples - como “aquecer a sala das 18h às 22h, quarto mais fresco à noite” - pode saber a superpoder silencioso no inverno.

“Se um cliente me diz que continua com frio e que o aquecimento ‘deve estar avariado’, nove vezes em dez a caldeira está bem”, diz Chris, técnico de aquecimento em Manchester. “O calor está lá. A casa é que não sabe como o reter.”

O Chris costuma deixar aos clientes uma pequena lista na mesa da cozinha. Nada sofisticado, nada caro - sobretudo sobre como abrandar as rotas de fuga do calor.

  • Vede correntes de ar óbvias à volta de janelas, portas e soalhos antes de mexer no termóstato.
  • Purgue os radiadores no início de cada época de aquecimento para recuperar a potência total.
  • Mantenha os móveis pelo menos a uma largura de mão dos radiadores, para o calor poder circular.
  • Use cortinas grossas à noite, sobretudo em janelas de vidro simples ou muito grandes.
  • Feche portas entre divisões aquecidas e não aquecidas para evitar “alimentar” espaços frios.

Quando o problema não é só a casa: hábitos, saúde e ladrões de calor escondidos

Há outra camada nesta história que os especialistas mencionam com cuidado: o próprio corpo. Pessoas com problemas de tiroide, má circulação ou percentagem de gordura corporal muito baixa podem sentir frio numa sala que todos os outros consideram confortável. Não é falha de caráter; é biologia. Nenhuma regulação no termóstato reescreve isso - apenas se adapta à volta.

Nalguns dias, o stress piora isto. Quando está tenso, o corpo desvia o sangue das mãos e dos pés, deixando dedos gelados. Pode interpretar isso como “a sala está glaciar”, quando, na verdade, o seu sistema nervoso está em alerta máximo. Uma manta quente, uma bebida quente e um pouco de respiração profunda podem fazer mais do que mais dois graus no seletor.

O comportamento também engana. Se trabalha longas horas à secretária, quase sem se mexer, torna-se o seu próprio “ponto frio”. Os músculos não estão a gerar calor. Levantar-se, alongar, uma ida rápida à cozinha a cada hora - não é só bom para a postura; muda a forma como o calor é sentido na pele.

Às vezes, a pergunta “porque é que tenho frio?” tem uma resposta menos poética: o sistema está mesmo a ter dificuldades. Um filtro entupido num sistema de ar forçado, lamas em radiadores antigos, um termóstato instalado no sítio errado, uma caldeira de condensação que nunca foi devidamente equilibrada depois de instalarem novos radiadores.

Os avaliadores energéticos dizem que frequentemente encontram termóstatos em corredores frios ou mesmo ao lado de uma porta com correntes. O aquecimento funciona mais tempo do que o necessário, sobreaquece outras divisões e, ainda assim, deixa os ocupantes a queixarem-se logo à entrada. Mudar o termóstato de sítio ou instalar sensores remotos na área principal de estar pode alterar completamente a sensação da casa.

Outros culpados clássicos: grelhas de ventilação bloqueadas atrás de sofás, radiadores escondidos por cortinas compridas, ou um exaustor potente na cozinha a puxar o ar quente do resto da casa. Nenhum destes é uma avaria dramática - e, no entanto, roubam conforto discretamente dia após dia.

O seu corpo regista tudo isto, mesmo que você não registe. Lembra-se do ritual noturno de meias duplas e manta no sofá, do bafo visível de manhã junto a uma janela fria, do arrepio ao pisar o soalho nu. Esses são os verdadeiros “dados” do conforto, mais honestos do que qualquer leitura do termóstato.

Por isso, quando der por si a aumentar o aquecimento outra vez, talvez valha a pena parar. Sinta as paredes. Percorra a casa como um técnico. Repare onde o calor fica e onde escapa. Algures entre a física do seu edifício e a forma como vive nele está a razão por que continua com frio - e a solução prática e discreta.

Ponto-chave Detalhe Interesse para o leitor
As superfícies frias importam Paredes, janelas e pisos podem “roubar” calor ao corpo mesmo quando o ar está quente. Explica por que aumentar o termóstato nem sempre resolve o frio.
Correntes de ar desperdiçam calor Pequenas frestas em caixilhos, portas e pavimentos criam perdas constantes de calor. Mostra onde correções rápidas e baratas podem melhorar muito o conforto.
Hábitos e saúde Pouca atividade, stress ou questões médicas podem alterar a perceção de calor. Ajuda a separar problemas do edifício de necessidades pessoais de conforto.

FAQ:

  • Porque é que sinto frio mesmo quando o termóstato marca 72°F? O corpo sente mais do que a temperatura do ar. Paredes frias, correntes de ar e pisos podem retirar-lhe calor, por isso sente frio mesmo numa divisão “quente”.
  • O meu sistema de aquecimento é pequeno demais para a minha casa? Às vezes, mas não tão frequentemente como as pessoas pensam. Muitos sistemas estão até sobredimensionados; o verdadeiro problema é isolamento fraco, correntes de ar ou radiadores mal equilibrados.
  • Aumentar o termóstato aquece a divisão mais depressa? Não. Normalmente apenas faz o sistema funcionar mais tempo e ultrapassar o alvo. O aquecimento sobe à mesma velocidade; a regulação mais alta só afeta a temperatura final.
  • Melhorar o isolamento pode mesmo permitir usar uma regulação mais baixa? Sim. Um isolamento melhor e a vedação de correntes reduzem as perdas de calor, por isso as divisões ficam confortáveis com números mais baixos no termóstato e mantêm-se quentes durante mais tempo.
  • Quando devo chamar um profissional? Se os radiadores continuarem frios em cima depois de purgar, se as divisões nunca atingirem a temperatura definida, ou se as faturas subirem sem explicação, é altura de um técnico ou avaliador energético investigar melhor.

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