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Porque as notas tradicionais prejudicam a aprendizagem dos alunos (alternativas melhores)

Mesa de sala de aula com cadernos, lápis, frasco com estrelas coloridas e um portátil ao fundo. Crianças desfocadas ao fundo.

I watched a boy called Ayaan clutch a crumpled progress sheet while his mum scanned the columns like an anxious accountant. He’d jumped from a 4 to a 6 in English. Smiles. Relief. A brief pat on the shoulder, and then his teacher, kind-eyed and knackered, admitted the grade was built on a single timed essay after a bout of cramming. Ayaan looked down. He knew it, too. On paper he’d improved; inside he felt like a ghost wearing someone else’s new jacket. The number didn’t fit. The number never tells the story. So why do we still let it run the show?

A letra que engole a história

Pergunte a um adolescente como correu a semana e, muitas vezes, recebe uma letra como resposta: um A a História, um 6 a Matemática, um B a Teatro. Esse atalho parece eficiente. Também transforma um processo desarrumado, curioso e por vezes empolgante num único veredito bruto. A nota grita; a aprendizagem sussurra. Não se veem os rascunhos que o Ayaan rasgou, as metáforas que experimentou e deitou fora, os buracos negros do YouTube que lhe ensinaram mais sobre ritmo do que qualquer ficha.

Todos já tivemos aquele momento em que a classificação cai na carteira com um estalo suave e o estômago afunda, ainda antes de virar a folha. Um único símbolo pode coroar uma semana ou esmagá-la. Pode fazer uma criança calar-se na aula durante meses. Pode convencer um professor a passar a correr pelas partes mais interessantes porque o teste aproxima-se, a folha de cálculo espera, o dado tem de ser alimentado. E a história - a parte humana - é engolida inteira.

As notas não são feedback; são um rótulo. Os rótulos colam-se à pele. Vão para casa nas mochilas e instalam-se nas conversas à mesa do jantar. Podem tornar-se identidades. “Eu sou um 4.” “Eu não sou de Matemática.” Isso é um hematoma invisível, e demora muito mais a sarar do que demorou a atribuir o número.

O que as notas fazem ao cérebro

Sente-se numa sala de exame e ouça. Há o raspar das esferográficas, o arrastar de cadeiras, as tosses pequeninas que soam a trovão. A respiração prende-se. Os ombros enrijecem. O corpo prepara-se para ser julgado. Quase se consegue traçar o cortisol a subir. Sob essa pressão, os alunos agarram-se ao que é seguro, não ao que é interessante. Decoram e despejam. Sustêm a respiração durante o teste e largam a aprendizagem no segundo em que o vigilante diz: “Canetas no chão.”

A neurociência continua a dizer-nos que curiosidade e memória são amigas. A curiosidade quer tempo para divagar; a memória gosta de emoção e significado. As notas comprimem tudo isso num sprint. Correr tem o seu lugar, claro, mas não como a única forma da escola. Quando é sempre uma corrida, não se sai do trilho para olhar para o escaravelho debaixo da folha ou fazer a pergunta desconfortável que faz uma aula descarrilar - deliciosamente.

Os incentivos perversos que ninguém gosta de admitir

Mostre-me uma nota de alto impacto e eu mostro-lhe os atalhos que crescem à volta dela. Treino com exames anteriores. Adivinhar a formulação “certa” do critério de correção. “Dê-me só os inícios de frase.” Os miúdos espertos tornam-se mais espertos a ler examinadores, não o mundo. Jogam o jogo porque o jogo paga. Tudo o resto é um luxo para depois do dia dos resultados - que, na prática, nunca chega, porque há sempre mais um teste.

A batota floresce sob pressão. E também o perfeccionismo, esse primo quebradiço do orgulho. Vê-se uma turma que antes fervilhava de ideias ficar silenciosa quando se aproxima uma semana de testes de simulação. Não porque se importem menos, mas porque têm medo de tentar algo que possa falhar. Sejamos honestos: ninguém trabalha assim todos os dias. Nenhum adulto faz o seu trabalho trancando-se numa sala silenciosa, proibindo colaboração e produzindo tudo de memória com um relógio a contar por cima da cabeça.

Professores, a caneta vermelha e o medo de domingo

Sentei-me com uma professora de Geografia, a meio da carreira, em Leeds, no período passado, enquanto ela corrigia trinta e três redações sobre erosão costeira. A sala cheirava a lasanha e a marcadores permanentes. Ela suspirava a cada três textos e esfregava o polegar na mancha de tinta do dedo anelar. Trinta e três crianças precisavam de feedback; ela tinha quatro horas e uma dor de cabeça. E tinha também uma folha de cálculo para atualizar porque alguém, algures, queria um número numa caixa até segunda-feira de manhã.

As notas tornam a administração simples e as relações complicadas. Uma nota baixa pode desalojar a confiança, mesmo quando o comentário ao lado é gentil e útil. O aluno vê primeiro o número. O encarregado de educação vê primeiro o número. A liderança vê primeiro o número. Assim, os professores aprendem a racionar atenção. As conversas formativas e suculentas, as que realmente fazem a aprendizagem avançar, ficam esmagadas entre entregas de dados.

Então, o que mais? Modelos que voltam a pôr a aprendizagem no centro

Aprendizagem por padrões e por domínio (mastery)

Em vez de uma média única para “Português” (ou “Inglês”), imagine um mapa. Mostra o que um aluno consegue fazer: estruturar um argumento, integrar citações, variar a sintaxe, avaliar um ponto de vista. Cada competência tem uma escada clara. Sobe-se quando se demonstra que se consegue, não quando o calendário diz que chegou a hora. Os alunos veem onde estão as lacunas e como as ligar. Repetições não são castigo; são esperadas, como ensaios antes da noite de estreia.

Vi a Maisie, uma ansiosa do 8.º ano, acompanhar o seu progresso num quadro na parede. Pontos verdes acumulavam-se ao lado de “Uso de evidência”, mas não de “Consciência do público”. Essa imagem mudou as perguntas dela. Deixou de ser “Que nota tive?” e passou a ser “Como é que faço esta parte cantar?” A professora respondeu com exemplos e um objetivo um patamar acima do nível atual. Sem mistério, sem vergonha - só passos.

Feedback narrativo que realmente chega

Quando a nota desaparece do topo da página, o comentário passa, de repente, a importar. Não um parágrafo de prosa de professor que ninguém lê, mas uma nota apertada: o que resultou, o que tentar a seguir, onde encontrar ajuda. O truque é especificidade sem sufocar. “A imagem de abertura é vívida; mantém essa energia podando as três frases do meio. Experimenta trocar os nomes abstratos por nomes concretos.” Isso é combustível, não nevoeiro.

Algumas escolas juntam a isto pequenas conferências. Dez minutos. Um aluno. Um professor. Uma página de trabalho na mesa e duas ou três perguntas. O que foi difícil? Do que é que estás orgulhoso? Qual é a próxima jogada? Ouvimos a confiança crescer nas pequenas pausas, na forma como um aluno toca na mesa quando um plano encaixa.

Portfólios e apresentações públicas

Ponha a aprendizagem na parede e convide pessoas a entrar. Em vez de um caderno de revisão que ninguém fora da cozinha verá, os alunos constroem portfólios que mostram rascunhos, reflexões, peças finais - até becos sem saída. Depois, selecionam e apresentam. Explicam escolhas em voz alta. O ato de ficar ao lado do próprio trabalho muda a forma como ele é feito. Pede artesanato, não apenas conclusão.

Ainda penso numa exposição do 11.º ano numa escola pública do sul de Londres, onde as luzes zumbiam e a sala cheirava levemente a cola em stick. Um rapaz que odiava escrever interpretou um monólogo de dois minutos, forjado a partir das entradas do seu diário. Nunca teria nota máxima num teste cronometrado, mas a sala inclinou-se para a frente. Mais tarde, a professora falou de como aquela atuação lhe deu um gancho para o ritmo e a estrutura das frases no período seguinte. O portfólio não era um álbum; era uma pista de descolagem.

“Ungrading”, com guardrails

“Ungrading” soa a caos até se ver de perto. A ideia é simples: retirar as notas do trabalho do dia a dia, manter feedback rico e convidar os alunos a propor a sua nota do período com evidência. O professor aceita, ajusta ou negoceia. Pede aos alunos autoavaliação séria e mantém a conversa viva. Há risco, sim, e precisa de estrutura, mas o ganho é a autonomia.

Um departamento de Inglês que visitei usava um modelo de uma página para isto. Os alunos anexavam dois trabalhos que mostravam evolução e escreviam uma nota curta sobre o que aprenderam e o que atacariam a seguir. O juízo final continuava com o professor, porque os exames externos exigem um número, mas o processo até lá era democrático no melhor sentido.

Janelas de aprovação, repetições e quizzing de baixo risco

Troque um teste gigante e decisivo por verificações frequentes e de baixo risco. Pequenos quizzes de recuperação, feitos de memória mas com sorrisos, dizem ao professor e à turma o que ficou. Se se falha a janela de aprovação num conceito, revisita-se e tenta-se outra vez. Sem drama. Sem letra escarlate. O domínio parece mais aprender a andar de bicicleta do que fazer uma audição para um júri.

Os alunos podem até escolher o momento da repetição dentro de uma janela. “Agora estou pronto.” Só essa frase muda a postura numa sala. O golpe de mestre não é marrar; é timing mais prática. Alguns departamentos emitem microcredenciais, pequenos emblemas digitais que certificam “Resolve sistemas de equações sem pistas” ou “Desmonta uma metáfora prolongada num poema”. Não são truques; são comprovativos.

Avaliação entre pares e autoavaliação que não é “tic na caixa”

Quando os alunos aprendem a ler o trabalho uns dos outros com olhos de artesão, acontece magia. Dê-lhes um foco apertado - um critério - e um modelo do que é “bom”. Depois ponha-os a conversar. A sala zune de revisão, não do tipo marrar, mas do tipo “deixa-me tentar esta frase outra vez”. Aprendem a dar elogio preciso e uma sugestão acionável, não um paternalista “muito bem”.

E sim, isso exige prática. Os adolescentes são críticos brilhantes quando confiam na sala. Copiam sem vergonha os bons hábitos uns dos outros. Nessa cultura, o professor é treinador, não juiz, e o placar vira nota de rodapé.

O que os encarregados de educação realmente querem saber

Os pais gostam de notas porque as notas parecem familiares. Encaixam direitinho naquela folha de cálculo mental de “Como está o meu filho?” Mas ouça com atenção nas reuniões e surgem outras perguntas. Conseguem falar sem bloquear? Sabem como melhorar? Estão felizes, desafiados, apoiados? Um 7 não responde a nada disso. Uma narrativa curta e um mapa simples de competências respondem.

Já vi pais suspirarem de alívio quando veem um portfólio. Aqui está o rascunho da redação com o comentário da professora. Aqui está o segundo rascunho com uma conclusão melhor. Aqui está a gravação do debate onde a sua filha fez três pontos claros e mudou de opinião uma vez, em voz alta. Isso é a parte preciosa. Os números não a apanham. As histórias apanham.

Mas e os GCSE e a universidade?

No Reino Unido, os grandes exames externos acontecem. Isso não vai desaparecer na próxima terça-feira. As escolas ainda podem ensinar para eles enquanto mudam tudo sobre o caminho. A avaliação do dia a dia pode ser por padrões, conversada e baseada em artefactos de aprendizagem, enquanto a tradução final para notas acontece no fim porque o sistema o exige. Pode-se separar a experiência vivida do placar sem fingir que o placar não existe.

As universidades precisam de notas em papel, sim, e o UCAS pede-as. Ainda assim, muitos avaliadores de admissão também procuram evidência de resiliência, curiosidade e interesse genuíno. Portfólios, projetos alargados, referências que descrevem crescimento - tudo isso faz diferença nas margens. E, para alunos que não seguem o percurso de A-level, registos por competências já estão a abrir portas em aprendizagens e vias técnicas. O mundo não é tão estreito como a coluna sugere.

O que as salas de aula podem mudar amanhã

Não é preciso uma revisão total da política para começar. Experimente feedback à turma inteira em vez de correção exaustiva: identifique três vitórias comuns, três áreas de foco e defina uma tarefa de melhoria para todos. Use uma rubrica de ponto único que mostre como é “cumprir o padrão” e deixe os alunos anotar o próprio trabalho contra ela. Troque a primeira semana de uma nova unidade por quizzing de baixo risco e jogos de recuperação para que o conhecimento assente de forma leve antes de ser obrigado a carregar peso.

Substitua uma nota esta semana por uma conversa. Pode ser cinco minutos no fim da aula com duas perguntas: O que tentaste? O que vais tentar a seguir? Peça aos alunos para escreverem o objetivo no caderno e para o revisitarem. Pequenas mudanças acumulam. Também mudam o ambiente. A sala amolece. Ouvem-se mais risos na segunda metade do período e menos daquele silêncio quebradiço antes de uma simulação.

Os mitos que mantêm as notas no trono

Mito um: as notas motivam. Motivam uma fatia de alunos, por pouco tempo. Depois o combustível queima sujo. Os miúdos que já acham que são “bons” ficam mais ousados; os que acham que não são encolhem. A motivação real costuma vir de ver progresso e sentir-se capaz. É isso que o acompanhamento por domínio e o feedback claro e gentil dão.

Mito dois: as notas são objetivas. Passe uma tarde a “corrigir às cegas” com um colega e veja as classificações derivarem. Uma boa moderação ajuda, mas a aprendizagem é rica demais para ser achatada com perfeição. Não é motivo para desistir do rigor. É motivo para ser transparente sobre critérios e mostrar trabalho publicamente, para que a qualidade tenha comunidade - não apenas um esquema de correção.

O que isto faz à identidade

Continuo a voltar ao Ayaan. Depois da reunião com os pais, a professora tentou algo pequeno. Tirou a nota da redação seguinte e deixou uma nota curta com um desafio. O Ayaan reescreveu e depois sentou-se para uma conversa de dois minutos. A sala estava ocupada e um pouco barulhenta; ouvia-se um agrafador a clicar num canto. Olharam juntos para uma frase, depois para duas. Uma semana depois, ele leu a abertura em voz alta e não resmungou.

Sei que parece “mole” dizer que uma criança endireita as costas quando o número desaparece, mas eu já vi isso mais vezes do que consigo contar. Não se transforma cada aluno num artista ou num académico por trocar modelos de avaliação. Mas torna-se mais fácil para eles verem-se como aprendentes, e não como objetos de julgamento. Essa mudança de identidade altera quanto tempo continuam a tentar quando fica difícil.

A vitória silenciosa do professor

Há também um argumento egoísta para tudo isto. Os professores merecem noites que não acabam numa ressaca de correções. Merecem gastar a sua perícia onde ela faz mais bem: clarificar objetivos, desenhar tarefas que deixem os alunos mostrar como pensam, ter aquelas conversas curtas e certeiras que empurram um texto de “ok” para “vivo”. As notas, muitas vezes, guardam esses momentos como porteiros. Os modelos alternativos multiplicam-nos.

Um coordenador de departamento disse-me que a equipa mudou para feedback quinzenal à turma e registos de competências. As horas de correção caíram. O planeamento das aulas ficou mais arrojado. Os alunos escreveram mais, não menos, porque não estavam à espera de ser julgados; estavam a construir para mostrar. Quando a Ofsted foi lá, o inspetor perguntou a uma aluna do 9.º ano sobre o seu progresso. Ela apontou para uma parede de objetivos e explicou, nas suas palavras, o que tinha aprendido e o que vinha a seguir. Isso não é truque. Isso é clareza.

Como é uma escola quando a nota deixa de mandar

Caminhe pelos corredores de uma escola que se inclina para este lado e o som é diferente. Mais silêncio durante o trabalho, mais barulho ao partilhar. As exposições parecem menos vitrines de prémios e mais oficinas. Os professores falam do “próximo rascunho” como treinadores falam do “próximo jogo”. No fim, os alunos continuam a fazer exames, mas os exames não são o ponto daquilo. O ponto é o que esses exames não conseguem capturar: o hábito de pensar, o brilho de tentar outra vez por escolha.

Aprender não é uma performance; é um processo. Performances são divertidas, mas raras. O processo é diário, ligeiramente confuso e mais honesto. Quando as escolas honram o processo, os alunos levam-no para lá dos portões. Sabem como começar, como persistir, como pedir ajuda, como avaliar o próprio trabalho contra um padrão partilhado. Isso fica muito depois de a tinta no talão de resultados secar.

A pequena revolução que se sente

Numa sala de Artes do 7.º ano no mês passado, uma rapariga chamada Lila mantinha um caderno A4 com separadores para “ideias”, “tentativas” e “para guardar”. A professora nunca escreveu uma nota. Escrevia perguntas. “E se a luz viesse da direita?” “Que linha merece ser mais grossa?” A peça final da Lila não era perfeita. Era mais corajosa. E a próxima será ainda mais corajosa. Esse é o tipo de trajetória que os dados não conseguem traçar e que as crianças lembram.

As notas vão continuar por perto porque os sistemas mudam devagar. As histórias movem-se mais depressa. Quando uma escola junta provas de que a curiosidade e a competência crescem sob outros tipos de avaliação, essa história viaja. Um pai conta a outro pai. Um aluno aterrorizado do 10.º ano torna-se um 11.º ano discretamente orgulhoso que ensina um mais novo a estudar sem pânico. E talvez, só talvez, da próxima vez que um número cair numa carteira, alguém faça a pergunta melhor: o que aconteceu no espaço que esse número não consegue ver?

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